Quinta-feira, já anoitecendo, depois de todas as minhas atividades cumpridas me dirigi, cruzando todas as ruas, ja meio vazias, a um pub chamado "The Cobblestone". Ouvira a alguns meses atrás ser um lugar de boas "sessões" de música. Como já havia visitado este mesmo pub, a as vezes difícil tarefa de encontrar o local não foi problema, pude então me concentrar em observar os antigos edifícios, agora quase todos reparticões públicas e afins. Ao me aproximar do local os edifícios comecaram a se tornar mais esparsos, as ruas mais sujas, as pessoas mais estranhas e, talvez por ja estar anoitecendo, os lugares maiores e vazios.
Tudo meio silencioso, avistei meu destino, passei por duas pessoas conversando na entrada, abri a porta, a sessão já havia começado. Me dirigi direto ao balcão, como de praxe não pude resistir, e porque iria, a uma grande "pint" (copo grande) de cerveja, no caso negra sem gás, produzida pelos arredores.
O pub, aconchegante refúgio da ventania vázia detrás, não estava muito cheio, me sentei bem perto dos músicos ao lado do balcão. Haviam neste momento cinco pessoas a musicar: três diferentes mulheres tocando violino (fiddle) e dois homems de meia idade, um tocando algo barecido com um banjo, o outro fiddle. Uma das mulheres, sorriso e jovialidade aparentes, a outra sempre muita atenta, olhos abertos, a última quase não se mexia, sem muito enstuasiasmo, com olhos fechados, a música fluia.
A música tocada eu já bem conhecia de sessões anteriores, sempre instrumental, minimalísta no sentido que pequenos "blocos ou padrões" musicais se repetem com frequencia e incremental pois a cada momento um novo instrumento ou padrão é adicionado a melodia corrente. As peças sempre bem melódicas e longas.
A cada longa música um novo músico se juntava ao grupo, que a cada momento se deixava levar pelos encantos da sequência melódica corrente. Em certos sentidos estas sessões são muito parecidas com as de chorinho que costumava frequentar no "bip bip", Rio de Janeiro.
Outro grupo, um homem com duas filhas adolescentes, a leveza e despretensão com certa timidez movem o arco do violino e o pequeno acordeon, dedos ágeis desabrocham. O pai toca um grande, difícil, em vários sentidos, e imponente instrumento, uma gaita de fole irlandesa.
A música vai se tornando mais densa, momentos mais ágil, difícil de escapar. Minha adimiração transparece timidamente em algumas palavras trocadas com as pessoas ao redor, muito amigáveis por sinal.
Os copos já vazios são repostos sem muita cerimônia, as mocinhas bebem coca-cola, todos bebem da mesma música. Os músicos não param de chegar, duas flautas transversais, duas flautas "doces", mais um violino, um violão, menos um banjo, mais uma viola. Todos tentam se acomodar no pequeno espaço do pub reservado a eles e aos outros.
Depois de muita música, alguma conversa, cabeça limpa, me levantei em direção à porta, troquei algumas palavras com um joven (gaita de fole) esperando para se juntar a sessão, que continuava meio sem hora para terminar. A noite não estava muito fria, mas dediquei passos largos ao meu próximo destino: casa e Lu.