Tuesday, 11 December 2007

Carta-poema para Luan

Olhos sábios, superficialmente cansados, quase irónicos, sabia ele toda a sua historia, sabia ele, produto derivado do primeiro ser vivo ao longo da via historica que o trouxe aqui, que a vida não tem sentido sem a morte. O sofrimento, as agruras da passagem, uma faísca no tempo, a ligação do ser com o todo.

Mantenho a leveza, a ternura, quando posso não me deixo amargurar. Face a morte, a separação, brigas e decepções todas envenam o sangue, enrigecem os musculos, a gordura; atrofiam os pensamentos os deixando poucas opções. Nunca porque os caminhos não existem, apenas porque estão interrompidos, foram destruídos pela falta de compreensão, auto-conhecimento e amor.

Já a dez dias sem falar, tentar não mais desafiava. Movimentos, apenas os necessários, quando nem os necessários, a intenção. O corpo magro sempre encurvado como que se para morrer fossemos nos tornando fetos da nova vida.

Ser amigo, confidente, um pouco preocupado demais com as pessoas de quem gostava. Sentimento eminente inato de um possível abandono. Gosto pela rotina, a rotina do passeio pela manha, a rotina da possibilidade da porta se abrir, dos sons engraçados, dos dias e das noites.

O início, sempre difícil, aqui não se manisfetava diferente, a conquista da amizade, a casa cheia de estudantes não perdoava um pedaço de pão ou salame sorrateiramente "roubados". Dias chuvosos, pêlo molhado; pulgas, pêlo raspado.

Luan das cachoeiras e acampamentos, sempre companheiro, sempre amigo, sempre fiel. Um rasgo no tempo, uma colcha de retalhos, minhas lembranças agora. Correndo atrás do carro meio com medo, prática de exercícios, todo empoeirado! Nadando nos rios, vários, muitos rios, muitas trilhas, dormindo em muitas barracas, ao relento comigo. Luan de manhã após uma noite no pico do itacolomi sem barraca, correndo faminto atrás dos bagaços de mexerica que jogavamos fora, o suficiente para lembrarmos de alimentá-lo! Luan voltando para casa do controverso "morro dos cachorros", diz a lenda que de la os cachorros que sobem nunca voltam, ele não era um cachorro. Noite, não me lembro a temperatura, provavelmente um pouco frio, Daniel, Carneiro, Luan e uma garrafa de cachaça encabeçam em direção ao morro dos cachorros. Todos, exceto a garrafa de cachaça, haviam estado antes lá. Na esperança de chegar ao cume, o que não era tão fácil com a noite e a sede, voltaram por todos os caminhos estreitos, porteiras, rodovias, ruas e cruzamentos, esquecidos do Luan, que os esperava na porta de casa!

Nas festas das republicas do morro, assim as chamavamos, não eram o ambiente mais agradável para Luan, mas estava ele sempre por lá correndo atrás de algum rabo de saia na vã esperança de conseguir um naco de carne. Ou já cansado, acolhido por alguma república, de procurar por conhecidos. Sua cama eram três, três ou quatro pares de pés, Ivang, Danielo, Marcelo e eu. A beliche não era fácil, mas nada que um pulo pela manhã acordando Ivan para o xixi matinal atrapalhasse.

Tudo envolvo a latidos frenéticos entusiasmados a mera ínfima possibilidade de um passeio, de uma brincadeira. Tinhamos que o cessar dos latidos seria o sinal, o aviso para quem quisesse se despedir que o fizesse logo.

Os tempos na cidade grande já não foram os mais agradáveis, pelo menos no meu pensamento pré-moldado. Morar em um apartamento, como os seres humanos, aprisionados, não parece tão bacana quanto em uma casa de portas abertas. Para ele, não sei se achava muito diferente, a felicidade inabálavel com a brincadeira do passeio se perpetuava! Assim como o amor, a proximidade, pelos que com ele moravam, conosco.

O sentimento é bom agora. De fato não pude ver Luan nos seus últimos momentos, nem sua cova, nem as rosas e a promessa de uma árvore com frutos. Não vi não conseguir se levantar, o se calar e o jejuar. Não vi os vômitos, não fiz comida, não bati ração com vegetais para lhe dar de comer na seringa, não fiz chá de cabelo de milho para diminuir sua ureia, não cherei o fedor ríspido de ureia da sua boca, não o levei ao veterinário, não presenciei a Pita doando seu sangue jovem e sua, mesmo que ligeira melhora, não o vi tentar se levantar para ir ao banheiro e cair antes de acabar no seu próprio mijo, não o vi contorcer com sua barriga dura, nem o pús nos seus olhos. Não estava quando a Pita veio lhe visitar. Não vi nenhuma lágrima, das muitas derramadas, entornei no entando, algumas. Não o vi também se esticar, como que oferecendo suas veias, não ouvi o perguntar meio desesperado: "Porque voce esta fazendo isso, Luan?", para que o veterinário lhe aplicasse a anestesia.

Não vi nada disto mas entendi e ouvi das pessoas, minha mãe e irmãs, que o fizeram...

Um pouco da história para guardarmos toda a bondade, felicidade e sabedoria que Luan trouxe a todos que o conheceram.

7 comments:

Unknown said...

eu aqui no meio da loucura de pessoas indo e vindo chorei algumas lágrimas por luan... lágrimas de tristeza por sua morte e também um pouco de arrependimento por nao ter acolhido ele qdo artur deixou Ouro Preto... na época pensamos mais nas obrigações que teríamos do que nas felicidades que um cão nos proporciona todos os dias! lágrimas também por hoje ser "pai" de duas lindas labradoras e saber que irei viver mais que elas!

lindo texto artur, como luan merecia!
convivi pouco com ele, aliás quase nada, mas conheço inúmeras histórias dele...

tudo do melhor a todos

Artur Versiani Scott Varella said...

Obrigado Kustelinha... não sinta, não existe sentimento de culpa ou arrependimento, não sinto realmente nenhum remorcio... alias não sinto remorcio algum :-)

Quero conhecer as labradoras!!

Abraco para a adriana tambem!

Vampirela said...

Mais uma almazinha boa que se vai e que vai fazer falta nesse mundo. Sempre considerei o Luan um amiguinho e acho q ele sabia disso, vou sentir muita falta dele.

Anonymous said...

Muito lindo o seu texto Artur, tá de parabéns. Vi o Luan nos seus últimos dias, eu e a Angélica levamos a Pita na sua casa e o Luan fiocu feliz. É uma pena que não deu pra ele esperar a sua chegada...

Anonymous said...

Belo texto cara, me emocionou de fato... Não conhecia seu blog, nem esse seu lado poeta/escritor. Combina com vc! Eu tb já fiz poemas, pergunta pra Lu!
Temos q nos falar mais bicho, parece até q se esquece da gente!
EH tutu, mais um amigão-companheiro que se foi ...
Fica a saudade, as memórias e todas as lições e ensinamentos que o pequeno-grande Luan nos deixou...
Eu o vi pela última vez quando fui levar Pita para doar o seu "young blood" a ele, num gesto de altruísmo e esperança. Ele estava calado e magro.
Soube que depois disso ele deu até uma animada (era como se fosse uma gasolina de foguete num fusquinha 66!)Mas não foi o suficiente para reverter o triste quadro em q nosso amigo se encontrava.. Daí então que, num ato de sublimação à dor terrena, seu corpo descansou. No entanto, sua alma se viu livre para brincar, passear e se aventurar por aí!
No mais tutu, esperamos suas chegadas (vc e lulu).
Muitas coisas boas para nós todos!
Abração,
seu irmão Nel.

LU said...
This comment has been removed by the author.
LU said...

Oi Artur,
Lindo lindo e emocionante poema para um cãozinho... Neste, perdi alguns amigos assim. Mas de certa forma assim que é.
Ô Vida!!! Que da morte só temos desconfianças... Mas desta sendo clara não estaria ali os desígnios que a Natureza impõe ou põe. Sabe-se lá!